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‘Jogo da Itália é a descoberta de um Brasil diferente’, diz antropólogo italiano

O antropólogo italiano Massimo Canevacci afirma em entrevista que Manaus ainda é uma cidade desconhecida para o povo italiano e que ao visualizar a imagem da Ponte Rio Negro, teve uma emoção simbólica

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci (Marko Belém Pereira Jr.)

Considerado um dos maiores pensadores da atualidade por romper com métodos clássicos da história intelectual e rediscutir o fetichismo elaborado por Karl Marx, o antropólogo italiano Massimo Canevacci, 72, em entrevista exclusiva ao A CRÍTICA, descreve os comportamentos peculiares do amazonense com o evento da Copa e os conceitos políticos-culturais que norteiam atualmente o país.

Massimo Cavenacci ainda destoa sobre a representatividade do jogo da seleção italiana na capital amazonense. Ele explica ainda sobre a metrópole contemporânea e as mídias digitais.

De que forma o senhor observa o fanatismo pelo futebol?

Sou de Roma e lá tem dois times, mas um é extremamente belo, a Roma é claro (risadas), outro é a Lazio. É claro que há um conflito muito profundo entre as torcidas, pois, não é somente um esporte, mas um estilo, uma escolha de vida, uma relação profunda, ou melhor, quase uma extensão da família, bem como a formação de um comportamento na maneira de se vestir e de se lidar.

Qual a sua opinião sobre o comportamento passional que as pessoas têm durante um evento como a Copa? O senhor se identifica com o mesmo?

A dimensão da paixão é parte que emana da pesquisa antropológica no sentido de que não há como dividir a paixão racional, lógica, metodológica com emoções, paixões, bem como a sensibilidade. Por isso, tentei identificar as situações de dentro e fora da paixão que o esporte proporciona. Durante o jogo de abertura da Copa (Brasil e Croácia) fiquei impressionado com a quantidade de jovens vestidos com camisas amarelas e, ainda mais quando o jogador Oscar fez o gol, eu também fiquei extremamente emocionado.

Qual foi a representatividade do jogo da seleção italiana, em Manaus?

A descoberta de um Brasil diferente. Digo, sinceramente, que Manaus é pouco conhecida na Itália. Eles (italianos) têm um breve conhecimento de uma lenda, de que o grande cantor Caruso esteve no Amazonas. No entanto, a maioria dos italianos não tem um profundo conhecimento da região amazônica; eles conhecem um lado mais folclorizado, pois, não se entende profundamente que Manaus é uma grande metrópole, que tem suas belezas naturais e seus problemas como toda cidade.

Qual o seu pensamento sobre Manaus e suas peculiaridades?

Me impressiona muito a relação do rio Negro e a cidade. A margem não é projetada, elaborada ou mesmo construída. Essa dimensão e beleza do rio Negro, marca um símbolo, mas parece-me que Manaus se desenvolveu de forma errônea, foi construída de costa para o rio, como se essa beleza natural não existisse, ao visualizar essa imagem da Ponte Rio Negro, tive uma emoção simbólica, foi a coisa que mais me marcou.

Parte dos turistas quem vem a Manaus tem uma visão “laica” da cidade. O senhor confirma isso ou essa autocrítica desaparece com a chegada demasiada de visitantes para a Copa?

Manaus representa o que está acontecendo atualmente no Brasil. Uma grande expansão dos fragmentos das culturas populares que ainda não tinham acesso ao consumo. Falta infraestrutura, mas este é um problema geral do país. Para amenizar estes gargalos é preciso investir na imaginação política para resolver muitas coisas, entretanto, a falta de infraestrutura parece estrangular não somente a economia-política, mas a logística e locomoção das pessoas. Manaus merece um metrô de superfície ou outro sistema de transporte. Acho que a questão do trânsito, como em muitas cidades brasileiras, é o principal problema.

O conceito de Cidade continua podendo ser aplicado?

Eu acho que o conceito de cidade é baseado numa concepção de cidadania e de produção industrial, que é desafiado profundamente na nova forma, por exemplo, de consumo. O consumo contemporâneo, dos últimos 10, 20 anos, baseado não somente nos shopping-centers, mas em um tipo de dimensão mais performática, por exemplo, parques temáticos, etc, desenvolve um diferente tipo de relação entre a individualidade e o conceito de sociedade.

O que diversifica a cultura da política entre países?

Em parte me parece até uma relação profunda entre a cultura e a política. Atualmente, é difícil separar a cultura da política. Na Itália, essa relação é muito mais incorporada, quase que impossível separar a cultura da política. Mas, ao mesmo tempo, no Brasil, em parte é assim, acho que é uma tendência da cultura global. Entretanto, seria importante entender que política não é partido. A cultura política não se idealiza na questão do partido como instituição que pretende governar uma cidade, uma instituição e um país.

Então, o que a cultura pode oferecer à política?

Acho que a grande possibilidade que uma cultura pode oferecer à política é entender a mudança, entender que a política não pode ficar parada, que precisa ser transformada e só assim ela poderá se transformar, através da cultura para continuar a ter direito de representar os povos.

A mesma cultura de política brasileira se aplica na Itália?

Não. A Itália tem uma tradição mais forte de partido com ideologia histórica. No Brasil, me parece que os partidos são mais individualizados. Partidos de Lula, de Marina, de Dilma, isso é um problema porque cria uma aliança apenas entre as pessoas, diferente de uma teoria política como afinidade, como deveria ser.

Que análise o senhor faz da cultura amazônica?

Amazônia é um símbolo de um desejo desconhecido. Não é somente a maior floresta do mundo, bem como o seu rio, mas há também uma possibilidade de encontrar aqui um tipo de felicidade utópica que poderia de qualquer maneira oferecer uma via de libertação para cada indivíduo. Só que essa via de libertação para cada amazônida, de um paraíso, de uma natureza mais forte na cultura, tecnologia e grande em sua metrópole.

E qual a impressão dessa dimensão mitológica da Amazônia para os italianos?

Acho que grande parte da impressão italiana é idealista, porque aqui, antes da Era da Borracha, sempre foi uma região de conflitos fortíssimos entre europeus, caboclos e indígenas, e, atualmente, esse conceito utópico de natureza harmônica continua em parte, se descobre que Manaus é uma cidade, e como toda cidade, como Roma, Londres e Paris, tem problemas.

Como o senhor acha que os meios de comunicação modificam a percepção que as pessoas têm da cidade?

Isso é fundamental, porque a nova forma de comunicação que é em parte baseada sobre a tecnologia digital, é a coisa mais forte de transformação. Mas em parte, é também baseada nesse tipo de experiência de um consumo que não é mais o consumo tradicional. No caso, a comunicação desenvolve um tipo de sensibilidade, por exemplo, do olhar, e da experiência de relação com as outras pessoas, que não estão no mesmo espaço-tempo, mas estão em outro contexto, que é radicalmente diferente do que ocorreu ao longo da história.

Que exemplos podemos ter dessa percepção?

Por exemplo, falando de espaço-tempo, se eu estou ligado na Internet eu posso ter uma comunicação simultânea com pessoas que podem morar em mais ou menos todos os lugares do mundo, e isso me dá um sentido onde o conceito, um pouco de tempo e de espaço se modifica profundamente. Ao mesmo tempo, eu posso me comunicar com pessoas dessa forma, posso olhar um jornal de New York, ou de Beijing, posso escrever e-mail, posso escrever para o orkut. Posso fazer uma multiplicidade de coisas, mais ou menos contemporaneamente, o que antes era totalmente impossível. Isso desenvolve um tipo de capacidade, um tipo de relação entre o olhar, o cérebro, o corpo, que favorece uma multiplicação perceptiva e também cognitiva. Acho que isso é a coisa mais significativa do que está acontecendo.

O que precisa ser feito para melhorar a comunicação no país, a exemplo da Internet?

Há uma presença forte, fortíssima, de pessoas que no Brasil utilizam a Internet de forma globalizada e localizada ao mesmo tempo. Esse outro segmento do digital divide, eu acho que uma política comunicacional, isto é, não mais tanto uma política social, mas uma política comunicacional.

Isso se enquadra à educação?

Sim. Principalmente, na escola pública. A escola pública deveria ser totalmente digitalizada, com financiamento não somente público, mas também privado. E este mesmo investimento aliado à tecnologia digital favorece a criatividade, ou poderia favorecer a criatividade da pessoa, singular, e também como público, para utilizar uma palavra que talvez seja um pouco atrasada.