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Após ser vigia de escola, professor inspira parentes a seguir a paixão de ensinar

Essa é a marca do mestre Gilberto de Castro Saraiva, que depois de 24 anos trabalhando como vigia em escola pública, em Manaus, tornou-se professor e inspirou três parentes a seguir a mesma carreira que tando acredita

Relembrando a velha missão, Gilberto Castro Saraiva conta como foram boas as primeiras semanas dentro da sala de aula de uma escola municípal no bairro Cidade de Deus, na Zona Leste

Relembrando a velha missão, Gilberto conta como foram boas as primeiras semanas dentro da sala de aula (Euzivaldo Queiroz)

A profissão de professor é uma das mais antigas e importantes do mundo, porém não recebe a valorização devida no Brasil, fato que se tornou até um bordão nacional. Mas em meio a tantos pontos contrários a essa carreira, ainda há quem acredite na docência como arte de ensinar e, por ela, superar todas as dificuldades - estruturais e políticas, além de interferências vividas dentro e fora da sala de aula - para transmitir valores humanos e formar não apenas alunos, mas cidadãos completos para atuar em sociedade.

Um exemplo desta modalidade de educador é Gilberto de Castro Saraiva, 55. Depois de 24 anos trabalhando como vigia em escola pública, em Manaus, tornou-se professor e inspirou dois de seus quatro filhos a seguir o mesmo caminho. Contudo, para Gilberto, o vigia, se tornar o professor Gilberto, o educador, foi um longo caminho percorrido na vida.

Ele ingressou nos quadros da escola estadual Luiz Vaz de Camões, no bairro Japiim, Zona Sul, em 1984, na função de vigia noturno, trabalho que o aproximou dos alunos. Mas só depois de três anos, quando foi transferido para o turno da manhã, ele começou a desenhar a escolha pela docência como realização de vida.

Gilberto passou a acompanhar de perto o trabalho de professores e se encantou com o exemplo de profissionais que doaram a vida para ensinar alunos mostrando que o papel do docente vai além da transmissão de conhecimentos e se trata de “um ato de doação”.

Referência

A dedicação dele em ajudar em tudo na escola fez com se tornasse uma referência para alunos, professores e pais. Com lições de respeito e cidadania que trouxe da criação católica, ele assumiu a figura de amigo dos alunos e a comunidade inteira passou o conhecer o Gilberto que além do portão, ajudava em sala de aula, na administração, em eventos e que jogava bola com alunos. “Eu lutava muito pelos alunos e faço isso até hoje”, afirma.

Nos anos 2000, ele achou que seria despedido quando o Estado substituiu vigias por agentes de portaria de empresas terceirizadas, os “verdinhos”. Mas ele era tão querido que a direção da escola o manteve na instituição fazendo serviços administrativos. Em 2008, prestou o vestibular pela primeira vez para Pedagogia, não foi bem sucedido, mas a experiência serviu para motivá-lo ainda mais na busca pela docência. No ano seguinte, fez novamente o vestibular e passou alcançando uma grande conquista. Em janeiro de 2010, começou o curso pela Universidade Do Estado do Amazonas (UEA). Se formou em junho deste ano e logo fez o concurso público da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Ele foi aprovado e assumiu a primeira turma de alunos há poucas semanas. Gilberto não podia evitar a expectativa do contato com a primeira turma de alunos, mas tirou de letra usando a experiência levada na bagagem.

Hoje ele é professor do ensino fundamental em uma escola municipal no bairro Cidade de Deus, na Zona Leste, no período da tarde e se diz realizado. Ele mora no bairro Japiim e precisa pegar o ônibus e ainda durante a manhã para chegar à instituição onde leciona. Entretanto, se engana quem pensa que a distância de casa para o trabalho é uma dificuldade. A maior dificuldade vivida por ele atualmente é à distância da escola e das pessoas com quem viveu mais de duas décadas. “Está sendo maravilhoso poder estar dentro de sala de aula, mas igualmente está sendo difícil ficar longe de onde criei raízes, do lugar que me fez escolher ser professor”, disse.

Profissão virou uma marca familiar

Se antes de trabalhar na escola Gilberto de Castro Saraiva era resistente a ver um familiar se tornar professor pelos baixos salários e situações de desrespeito, depois de três anos na instituição, além de desejar ser professor, também se tornou incentivador deste caminho profissional. Antes dele se tornar professor incentivou a esposa e filhos. A esposa se formou em Pedagogia, dois filhos se tornaram professores de matemática e os outros dois filhos se tornaram engenheiros.

Até 2010, Gilberto colaborava com os alunos na figura de amigo, mas quando passou a fazer seu estágio pela universidade entrou na sala de aula da escola que o inspirou como educar. Quando algum professor faltava, Gilberto assumia a turma para que os alunos não ficassem se aula e que deveria ser mais um dia comum, se tornava uma festa.

Na data em que é comemorado o dia do estudante, Gilberto foi chamado para assistir as homenagens aos alunos, mas foi surpreendido por uma homenagem feita por toda a escola para ele. Foi um momento de emoção e agradecimento que marcou a despedida dele rumo ao início de um novo caminho.