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O uso da internet pelos jovens e suas consequências

Muitos pais desconhecem - e crianças e jovens menos ainda - as consequências legais do uso incorreto da net

Recentemente, o caso de dois adolescentes gaúchos de classe média, uma menina de 14 e um menino de 16 anos, que transmitiram cenas íntimas ao vivo por meio da ferramenta de vídeo Twitcam, causou grande repercussão. A menina perdeu uma aposta em um jogo de cartas virtual e, com isso, teria concordado em tirar as roupas, conforme aumentasse a audiência da transmissão. As imagens foram assistidas por 26 mil usuários, e foram feitos 12 mil downloads do vídeo. O garoto, que virou ídolo virtual da noite para o dia, se vangloriou do ocorrido e respondia a perguntas de uma legião de adolescentes.

Situações como essa, que começam a pipocar pelo País, derivam do sexting (sex, de sexo, e texting, de envio de mensagens), fenômeno recente no qual adolescentes usam seus celulares, câmeras, contas de e-mail, salas de bate-papo, comunicadores instantâneos e sites de relacionamento para produzirem e enviarem fotos sensuais. Com os hormônios à flor da pele e estimulados pelos apelos midiáticos dos realities shows, sinalizam que querem ser vistos e reconhecidos. Assim, tornam suas experiências sexuais um espetáculo na rede.

Segundo o delegado Emerson Wendt, da Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos do Rio Grande do Sul, que acompanhou o caso dos adolescentes gaúchos, a superexposição demonstra a total alienação dos pais em relação à "vida virtual" dos filhos. "Os resultados são danosos, tanto para as crianças ou adolescentes expostos como para a família", afirma.

O que muitos pais desconhecem - e crianças e jovens menos ainda - são as consequências legais do uso incorreto da net. "As postagens dos filhos na web, quando ofensivas às outras pessoas, podem configurar o que o Estatuto da Criança e Adolescente chama de 'ato infracional', quando uma conduta prevista como crime é praticada por adolescente, entre 12 e 18 anos. Ao menor pode ser atribuída uma medida socioeducativa. Os pais podem vir a ser acionados, principalmente civilmente, como já ocorreu no Brasil."

Pesquisa - Estão os jovens preparados para lidar com o grau de abertura proporcionado pela internet? Segundo pesquisa realizada, em 2009, pelo Laboratório de Estudos em Ética nos Meios Eletrônicos (Leeme) da Universidade Mackenzie, com 2.039 jovens entre 11 e 18 anos, de escolas públicas e particulares, a resposta é não. De acordo com o estudo, coordenado pela professora Solange Barros, os adolescentes estão suscetíveis a problemas como exposição à pornografia, divulgação indevida de imagem e dados pessoais, boatos, pedofilia e incitação à violência. "Quarenta e cinco por cento dos entrevistados já tiveram medo em algum tipo de acesso que fizeram na rede."

Nas escolas pública e particular, o comportamento dos alunos se assemelha em alguns pontos. "Ambos acessam o computador mais de cinco vezes por semana, e 99% sabem dos riscos", fala Solange, lembrando que a maior parte dos entrevistados faz uso da internet sem nenhum controle dos pais. "Desde tenra idade, os pais devem acompanhá-los de perto e, depois, devem fazer parte das redes sociais deles."

A pesquisa deu origem a dois livros - "De Bem com a Internet" e "Uso Legal da Internet" - voltados, respectivamente, para alunos do Ensino Fundamental e Ensino Médio, e que serão lançados em novembro. As publicações estarão disponíveis para download, e podem ser utilizadas em sala de aula.

Comportamento preocupa - Para o psicólogo Rodrigo Nejm, diretor da ONG SaferNet Brasil - que, além de receber denúncias de pornografia infantil e pedofilia, atua na área de educação -, o "sexting" traz à tona algo muito mais complexo e delicado, que é o sexo pelo sexo, sem afetividade.

"Alguns reproduzem, em vídeos, cenas de filmes pornôs, fazendo sexo de forma mecânica", afirma, citando o caso de um vídeo com dois rapazes e uma garota de 13 anos, em cena íntima no banheiro, em uma escola pública do Paraná. Segundo Nejm, eles sabem da dimensão do público. "Quanto mais acessos tiverem, maior a fama. Esse comportamento é fruto do culto ao corpo e da erotização precoce por meio da música, roupas, TV. Nos realities shows, é ‘legal’ mostrar a intimidade e ter minutos de fama."

Aos pais, recomenda, o caminho não é proibir, nem ser um expert em informática. "Internet tem educação, lazer e bandido. É como uma praça pública, e a orientação é navegar com eles, da infância à adolescência. Para prevenir casos de "sexting", um caminho é convidar os filhos a refletirem sobre as consequências da superexposição. "Imagine esses jovens daqui a dez anos, como pais e profissionais, vendo o filme que fizeram quando adolescentes circulando por aí? Não há como remover, pois, caiu na rede, as pessoas fazem download no HD, celular, pen drive."

Eles opinam - Segundo Adriana Giorgi Costa, orientadora educacional do Ensino Fundamental no Colégio Pentágono, de São Paulo, crianças e adolescentes são vulneráveis. "Por se tratar de um universo virtual, a internet traz uma falsa sensação de anonimato e impunidade", diz, observando que um dos temas recentes na sala de aula foi a questão legal envolvendo responsabilidades (processos, indenizações) pelos atos praticados.

A pedido da reportagem, a coordenadora reuniu uma turma de alunos da oitava série do Ensino Fundamental, na faixa de 12 e 13 anos, para falar sobre o uso da internet: Gabriel Milani, Luís Moraes, Nicole Anjos, Emma Jovanovic, Giovanna Caravetti, Camila Cunha, Julia Carvalho e Rodrigo Pires. Com exceção de duas meninas, a maioria fica uma hora e meia por dia no computador. Adoram as mídias sociais, como Orkut (detestam Facebook), Twitter, Formspring, e usam o MSN ou Skype.

A economia de dinheiro, a rapidez e as formas de interatividade, dizem, são fatores que os atraem para essas ferramentas. As meninas contam que navegam em sites de moda, beleza, música e celebridades. Já os meninos gostam mais dos jogos online. Elas expõem fotos no Orkut mais do que eles. Sobre a exposição de imagens pessoais, diz Giovanna: "Imagine ir a um parque com as minhas amigas e ser a única a não aparecer nas fotos? É muito sem graça. Tudo na vida tem um risco."

Quando a conversa é sobre sexo, fotos e vídeos sensuais, a mesa redonda teen pega fogo. Emma menciona o Lingerie Day, um dia eleito no Twitter, quando as meninas posam de calcinha e sutiã. Para os adultos, é exibicionismo, para as garotas, uma brincadeira inconsequente "que só dura um dia".

Exibir o corpo e fazer sexo com transmissão ao vivo, segundo eles, só tem um motivo: ficar famoso. Porém, Nicole lembra que não é só o sexo que faz a rede ferver, e menciona o carioca Felipe Neto, que começou a fazer sucesso com o vlog (vídeo blog) Não Faz Sentido. "Ele critica e xinga os novos ídolos, fala palavrões e, com isso, consegue milhares de acessos."

Apesar de serem orientados na escola sobre as consequências do uso não ético da internet, o cyberbullig acaba acontecendo. O anonimato cria espaço para ofender, caluniar e fazer intrigas contra os colegas. O playground favorito para a prática de cyberbullying, falam os jovens, é o site Formspring, onde os usuários têm a opção de se identificar ou não.

Por outro lado, o anonimato pode ser usado como forma de autoconhecimento, como é o caso de Camila, que criou um perfil falso no Orkut e, assim, expõe seus pensamentos mais livremente. Para Emma, pegaram uma ideia boa, que é a das mídias sociais, e a transformaram em algo ruim. "Mas não dá para viver sem", conclui a adolescente, resumindo o comportamento da geração. Net.
 
SEGURANÇA ON LINE
Segundo Relatório Norton Online Family Report, elaborado em julho deste ano, as crianças brasileiras são as que mais ficam online, passando, em média, 18,3 horas por semana. E mais: 79% das crianças brasileiras já tiveram alguma experiência negativa online.

Dessas 79%, 58% adicionaram um desconhecido na rede social; 53% baixaram algum vírus no PC da família; 34% viram imagens violentas ou de nudez. Só 65% dos pais acham que os filhos tiveram uma experiência negativa. 51% das crianças afirmaram que estão mais cuidadosas quanto ao uso da internet. 17% das crianças brasileiras acham que os pais não sabem o que elas fazem online. 84% das crianças dizem que seguem as regras de utilização da web na família. 19% não usam nenhuma referência de segurança. Eles simplesmente clicam no que recebem.

Apenas 31% dos pais entrariam em contato com os pais das crianças que cometeram o bullying contra seu filho, caso tomassem conhecimento de uma experiência negativa online.