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‘Letras e palavras’: Amazonense Óscar Ramos é foco de exposição no Rio de Janeiro

Mostra do projeto “Poesia Visual”, do Oi Futuro, reunirá criações do artista amazonense dos anos 1960 até a atualidade

O livro “Maya”, uma referência à deusa brâmane da ilusão, será lançado no dia 25 abril pela Secretaria de Cultura (SEC), apesar de já estar pronto há um ano

Nascido em Itacoatiara, modesto e tímido, Óscar de início ainda resistiu a expor seus trabalhos na capital carioca (Arquivo AC)

Dos trabalhos sob a supervisão do artista concreto Ivan Serpa nos anos 1960 até hoje, passando pelas experiências libertárias em capas de LPs e na revista “Navilouca”, nos anos 1970, letras e palavras sempre estiveram no centro da arte de Óscar Ramos. Só que, em vez de fazer delas prosa ou poesia, o artista amazonense as emprega como material de desenho, em obras feitas para serem vistas tanto quanto lidas – em outras palavras, poesias visuais.

“Letras e palavras” justamente é o nome da exposição a ser aberta no próximo dia 11, terça-feira, no Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro, trazendo um conjunto de obras de Óscar que resume quase meio século de produção poético-visual. A mostra, que integra o projeto “Poesia Visual 3” do Oi Futuro e tem curadoria do também amazonense Alberto Saraiva, busca ressituar a obra de Óscar no panorama da poesia visual e da arte contemporânea do Brasil.

“Para mim parece uma coisa meio surreal. Fico emocionado, nervoso, embora não inseguro, pois tenho consciência da minha obra. Não me acho genial, mas não sou medíocre”, declara o artista.

Modesto e um tanto tímido, Óscar de início ainda resistiu a expor. Tal resistência em parte tem a ver com o fato do artista sempre ter produzido mais para revistas e encartes de discos do que para galerias. E isso, por sua vez, justifica por que a maioria dos trabalhos de “Letras e palavras”, mesmo alguns com mais de décadas, permaneceram inéditos até hoje. “Algumas das ideias para essas obras não estavam nem anotadas, estavam só na minha cabeça. Comecei a ‘desenterrar’ coisas minhas”, revela.

Primazia da palavra

O mergulho na própria história não deixou de trazer surpresas: “Lembro uma vez de ver o Hélio Oiticica, de volta de Nova York e desencaixotando coisas suas, sentado no chão com seus antigos metaesquemas espalhados ao seu redor. Em cada um, ele via algo que teve seguimento em sua obra mais tarde. Comigo se deu algo parecido: me dei conta de que trabalho com palavras desde que era aluno do Serpa. Desde lá, a palavra já estava na minha obra”.

De fato, um dos trabalhos mais antigos da mostra, concebido em 1965, explora a visualidade da palavra “inox”. Outro, produzido em 1974 com Luciano Figueiredo, então seu companheiro e parceiro artístico, traz as palavras “nata” e “ato” cortadas por uma diagonal, e instiga ao pressupor o movimento entre os planos criados pelo corte.

Dos mais recentes, há uma homenagem de Óscar a sua terra natal, Itacoatiara, feita em 2013. Nela, as palavras-base do tupi-guarani que formam o nome do município amazonense se espalham na tela e ao redor de uma carta de tarô com o símbolo de um coração.

Fora do padrão

O acervo de “Letras e palavras” evidencia o talento peculiar de Óscar no design, e que teve maior expressão nos anos 1970, no Rio, quando ele compartilhou da busca por uma nova poética visual com nomes como Waly Salomão, Torquato Neto, Caetano Veloso, Figueiredo e Oiticica, entre outros. Dela resultaram não só a “Navilouca”, mas logotipos, cartazes e encartes de LPs – alguns ainda icônicos, como “Gal Fatal – A todo vapor” (1971), de Gal Costa.

Em plena ditadura, lembra Óscar, o design fora do padrão era uma forma de “guerrilha urbana”: “As capas de discos não eram só decorativas, mas um complemento do álbum como um todo. Para mim e Luciano, elas eram um campo de trabalho”.

A partir de 1972, Óscar viveu por seis anos na Inglaterra; na volta, enveredou pelo trabalho na direção de arte para cinema. Ele voltou a Manaus em 1993, após 36 anos longe, e em 1996 decidiu ficar. E hoje mostra alegria por revisitar a capital carioca, depois de quase duas décadas.

“É excitante rever pessoas e voltar com um trabalho que me deu muita exposição no Rio (...), de coisas que fiz com base unicamente na minha capacidade de criar e trabalhar com fontes e tipologias”.

Perfil: Óscar Ramos

Nascido em Itacoatiara em 1938. Nos anos 1960, no Rio de Janeiro, cursou Pintura Livre com Ivan Serpa, no MAM. Mais tarde, ao lado de Luciano Figueiredo, desenvolveu uma arte que buscava fugir de esquemas tradicionais. Esse ideal artístico se refletiu em capas de LPs e na revista “Navilouca” (1972), de Torquato Neto e Waly Salomão. A convite de Julio Bressane, foi diretor de arte do filme “O gigante da América” (1978), iniciando uma profícua carreira nesse segmento desde lá.

Blog: Alberto Saraiva, curador do Oi Futuro

“O Óscar Ramos foi nos anos 1970 e é até hoje um dos grandes criadores de poesia visual no Brasil. Sua experiência em artes visuais, literatura, poesia, palco – ele juntou tudo ao criar obras híbridas, à época nem entendidas com tanta clareza. Olhando para trás, vemos que ele foi um dos vetores do que chamo de ‘poesia total’, tipo de experiência poética em que a poesia ganha configuração visual, e a palavra deixa de lado sua função como tal para dinamizar o campo visual, de capas de discos até espaços cênicos. O Óscar teve essa experiência, ao lado de outros que agregaram um sistema de pensamento e reflexão sobre o que eram arte e poesia visual, nos anos 1970. A ‘coroa’ desse movimento foi a revista ‘Navilouca’, idealizada por Waly Salomão e Torquato Neto, pensada visualmente por Óscar e Luciano Figueiredo, e com um conjunto de gente importante: Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Caetano Veloso (...) Enfim, ele é um artista da multiplicidade, que já nos anos 1970 atuava em várias frentes. A presença de Óscar no projeto ‘Poesia visual’ é fundamental, e esperamos que traga bons resultados, para que esse artista ganhe mais atenção.”

“Letras e palavras - Óscar Ramos” inaugura no dia 11, terça, às 19h30, no Oi Futuro Ipanema, na rua Visconde de Pirajá, 54, no Rio. A mostra é realizada por Oi Futuro e Fase 10 Ação Contempo- rânea, com patrocínio da Oi e da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro.