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Livro antológico da poesia amazonense ganha nova edição

Obra do poeta amazonense Luiz Bacellar conquistou prêmio Olavo Bilac quando foi lançada em 1963

" Frauta de barro" é o mais conhecido livro do poeta Luiz Bacellar

" Frauta de barro" é o mais conhecido livro do poeta Luiz Bacellar (Euzivaldo Queiroz- 25/05/2005)

“Minha cápsula de incêndios, meu cofre de labaredas”. Esta descrição, tão extravagante quanto apoteótica, traduz uma simples caixa de fósforos. Nas mãos de um poeta de extremo domínio da linguagem e sensível, o objeto tão trivial ganha ares de grande personagem com a adição de um peculiar tom humorístico. “Soneto da Caixa de Fósforos” integra uma das mais importantes obras da literatura amazonense, “Frauta de Barro”, de Luiz Bacellar.

Lançada em 1963, “Frauta de Barro” entra em sua nona edição. O lançamento acontece no próximo dia 28 (sábado), na sede da editora Valer. Os organizadores da cerimônia ainda aguardam decisão do médico que acompanha Luiz Bacellar, atualmente hospitalizado em razão de uma enfermidade grave.

Há 53 anos, a obra “Frauta de Barro” sagrou-se vencedora do Prêmio Olavo Bilac, no Rio de Janeiro. O concurso era nacional, atraiu poetas de várias partes do país. A comissão julgadora não poderia ser mais excepcional: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e José Paulo Moreira da Fonseca.

Ao olhar para a Manaus de sua infância e juventude, Bacellar, em sua obra, transcendeu matizes locais e ressignificou fatos do cotidiano de sua cidade. E foi esta observação privilegiada que conquistou a comissão, cujo parecer assim qualificou a poesia do amazonense: “Não estamos diante de uma poesia ‘confissão’, de uma poesia ‘desabafo’, porém face a uma contida estruturação do poema, face a uma escolha ‘consciente’ dos vocábulos. (...) O autor, em geral, sabe mesclar a ciência literária a uma efetiva capacidade de emocionar”.

 Resgate

A nona edição do livro, que resgata a capa original, de 1963, produzida por Álvaro Páscoa, um dos mais prestigiados artistas plásticos do Amazonas, foi publicada no final do ano passado, mas que, por conta de vários percalços (sobretudo devido à saúde debilitada de Bacellar), teve o lançamento continuamente adiado.

Sua concepção foi acompanhada detalhadamente por Bacellar. E traz um pequeno dado, que é um primor de informação e esclarece de uma vez um fato que se tornou lenda em sua obscura vida afetiva. O livro é dedicado a Joana de Lima Teixeira. Dedicado, não. Bacellar diz que o livro “pertence” a Joana, Nini para os íntimos. “Nesta edição corrijo uma injustiça por mim cometida nas edições anteriores deste livro e de todos os outros de minha autoria”, diz o poeta. Nini é descrita, em francês, como “dama imperiosa de meu coração inflamado”.

Noiva

Quem foi Nini? As especulações são inúmeras, mas Bacellar conta, aos pedaços, bem ao seu estilo, apenas para poucos e próximos amigos. O escritor Tenório Telles relata (mas sem exatidão) que Nini era noiva do poeta e teria sido a responsável por todo o vigor literário de Luiz Bacellar. Ela teria o incentivado a participar do concurso. E não apenas isso. Que ela própria teria feito a inscrição. Mais tarde, Nini acompanharia Bacellar ao Rio de Janeiro, para onde o poeta se mudou e passou uma temporada.

“Por força de uma série de circunstâncias, esse relacionamento não deu certo. Isso marcou profundamente a vida dele. Então, essa nova edição é uma referência também à noiva que ele teve na juventude. Conta-se que ela participou também diretamente da edição da primeira edição e fez a concepção gráfica. Por isso essa nona edição recupera aspectos da primeira edição”, diz o escritor Tenório Telles e responsável pela coordenação editorial desta nova publicação.

A edição tem também uma versão especial, de capa dura e desenho do brasão da família de Bacellar. A tiragem, limitada a 108 exemplares, vem em duas séries rubricadas pelo autor com sinetes redondos e quadrados, em lacres vermelho e dourado.

Manaus

Luiz Bacellar é, por excelência, um poeta da cidade de Manaus. A leitura de “Frauta de Barro” (que eu repeti vivamente para escrever esta matéria) transmite a sua relação com uma Manaus que não existe mais. De estilo refinado, fala com extrema ternura dos objetos e situações mais banais do cotidiano e com atenção minuciosa que só grandes poetas como ele conseguem dedicar.

O poeta elevou a mera observação à importância que ela merece. Observando não apenas pelo lado exterior, mas por dentro de si, de suas lembranças e nostalgias de infância e juventude. Herdeiro de uma família com fortes ligações com a nobreza portuguesa (que ele sempre faz questão de mencionar), Bacellar tornou-se um caboclo local quando nasceu no dia 4 de setembro de 1928 em uma casa do centro de Manaus.

Seus anos seguintes, contudo, concentraram-se no bairro de Aparecida, cujo ambiente foi durante tanto tempo sua inspiração. Nos versos de “Frauta de Barro” estão presentes o bairro de  Educandos e a capela do Pobre Diabo. Traz uma Manaus provinciana e menos pretensiosa.

Odes

Mas o livro não é apenas uma recordação da Manaus viçosa e lúdica, mas a Manaus violenta, dos crimes conjugais, dos galanteadores imprudentes e das situações embaraçosas. Estão lá os versos do “ Romance do Esquartejado”, do “Chiquinho das Alvarengas” e a triste “Balada da Rua da Conceição”.

Na segunda parte do livro opera-se uma mudança. É um festival de odes a pessoas admiradas. São os “poemas dedicados” a Fernando Pessoa e a um de seus heterônimos, Ricardo Reis, a João Cabral de Melo Neto, Garcia Lorca, Charles Chaplin, a Dante, e Rainer Maria Rilke.

Doença

Há alguns meses, Luiz Bacellar foi vitima de um atropelamento que lhe quebrou uma perna e debilitou seu físico frágil. Fez tratamento e se recuperou do acidente. Na semana passada estive com Bacellar, que está hospitalizado, em tratamento contra um câncer no pulmão. Está sendo acompanhado por cuidadores, enfermeiros voluntários e, especialmente, pelos poetas Thiago de Melo e Zé Maria Pinto.

Tivemos um rápido diálogo. Seu temperamento (difícil) oscila, ele se exprime com voz rouca e respiração ofegante. Conheço Bacellar há vários anos. Fiz algumas entrevistas, publicadas aqui neste jornal. Ele me contou que um de seus planos, quando a saúde permitir, é concluir os seus “rondeis de frutas”. Cinquenta estão publicadas em outra obra espetacular, “Sol da Feira”. Dos cinco planejados, ele citou o rondel do abacate.

A editora Valer organiza uma nova edição de “Sol de Feira”, ainda sem data. Bacellar já teria, inclusive, acrescentado uma série de informações no sortimento de frutas publicado no livro, a partir de novas pesquisas sobre a composição e sobre o tipo de preparo que se pode fazer com elas.

Pesquisa

Quem convive com o poeta sabe que ele tem um temperamento não ajustado ao modo convencional. Mas quem vê outra face, sabe também que Bacellar é um poeta sensível, cuidadoso, que pesquisa e se aprofunda. No passado, transitou por diferentes ramos do saber – durante anos foi revisor do jornal A CRÍTICA.

Teve formação em antropologia social, foi aluno de Darcy Ribeiro (a quem descreveu como “um homem vaidoso”). Teve uma profunda amizade com o sociólogo Djalma Batista, um de seus maiores incentivadores. Aprendeu a falar quatro idiomas (francês, italiano, espanhol e inglês) lendo muito. É tão arrojado que arrisca falar com sotaque a língua de outros países.

Leitura

O lançamento da nona edição de “Frauta de Barro” ocorrerá na Livraria Valer (rua Ramos Ferreira, Centro), a partir de 10h do próximo dia 28. Haverá um café da manhã para receber amigos e admiradores. Ocorrerá também leitura de alguns de seus mais famosos poemas. A presença de Bacellar, contudo, dependerá da avaliação médica.

O também escritor e poeta Zé Maria Pinto fala sobre a obra de Bacellar:

“A obra de Luiz Bacellar é pequena, porém muito densa. ‘Frauta de Barro’, de 1963, é o livro de estreia de um poeta maduro. Não à toa, ganhou, quatro anos antes, o prêmio Olavo Bilac, da prefeitura do Rio de Janeiro, à época um dos prêmios literários mais importantes. ‘Sol de Feira’, de 1973, é um dos livros mais emblemáticos da poesia brasileira: regionalista na aparência, poucas coleções de poemas são dotadas de tanta universalidade.


Arquitetado como um mural de Rivera, onde cada figura guarda um símbolo e cada símbolo se relaciona com os outros em rígida simetria, “Sol de Feira” tem a simplicidade das grandes criações. Mas o meu preferido é ‘Quatro Movimentos’, de 1975, que já mudou de nome duas vezes: ‘Quarteto’ e ‘Quatuor’. Sua leitura é um desafio sempre renovado, porque é um texto de múltiplos significados.

No meu ‘Música para surdos’, que tem muitos ecos bacellarianos, procurei homenageá-lo na estruturação similar, em quatro movimentos. Espero um dia ter fôlego para escrever um ensaio interpretativo do ‘Quatuor’, pois é uma poesia para poetas.”