Log in

Bem-vindo Log out Alterar dados pessoais

Esqueceu a senha?

X

Qualquer dúvida click no link ao lado para contato com a Central de Atendimento ao Assinante

Esqueceu a senha?

X

Sua senha foi enviadad para o e-mail:

Arte feita de papel: artista celebra 40 anos de ateliê

Haroldo Ayres vem combinando pesquisa artística, divulgação científica e consciência ambiental há quatro décadas

Artista tem acervo com centenas de ilustrações científicas

Artista tem acervo com centenas de ilustrações científicas (Marcio Silva)

A arte se confunde com a ciência na trajetória de Haroldo Ayres. A partir dos anos 1970, o técnico em pesquisas levou a sua curiosidade científica ao terreno das artes plásticas, e desde lá vem expressando seu talento em projetos peculiares, do uso da pirogravura na ilustração científica à confecção artesanal de papel com fibras de resíduos orgânicos comuns, como frutas e verduras. Completando 40 anos de seu ateliê-laboratório, ele continua transitando entre dois universos e desenvolvendo projetos com potencial social, educativo e econômico.

Hoje, por exemplo, Ayres direciona seus experimentos à confecção de papel a partir de algas da costa brasileira. A novidade se soma a pesquisas já feitas com talos de bananeira, tucumã e cascas de macaxeira, entre outras – várias – matérias-primas regionais que passaram por suas mãos.

“Coletei algas do litoral paulista e comecei a desenvolver o trabalho de confecção do papel com mucilagem feita de alga”, explica o artista de 60 anos, exibindo e comparando papéis feitos usando alga (Kappaphycus alvarezii) e macaxeira (Manihot esculenta) como ligamento, ou mucilagem, e fibra de juta. “Esse papel, feito a partir da alga, é translúcido e tem mais brilho”, observa ele.

Experimentador

O papel feito do Kappaphycus é só um exemplo das experimentações que marcam toda a carreira de Ayres. Em paralelo ao trabalho como técnico, décadas atrás ele começou a testar diferentes suportes e técnicas, como pintura, escultura e entalhe, feitos em pedra, madeira ou gesso. Na busca por novos materiais, ele descobriu materiais industriais, como placas de MDF. “Introduzi o entalhe no compensado e no gesso, e comecei a entalhar também no MDF. Sempre tive a preocupação de estar inovando”, salienta.

Outro “achado” de Ayres foi o papelão rejeitado por fábricas, com que ele começou a desenvolver outro trabalho que marca sua obra: a ilustração científica com pirogravura sobre papel. “Conheci a pirogravura quando criança, e mais tarde comecei a aprimorá-la. Sou o único que trabalha com essa técnica na ilustração científica”, comenta o artista, que coleciona centenas de reproduções da fauna e da flora, amazônica e internacional, além da anatomia humana.

Apelo ambiental

A preocupação de Ayres em dar novo uso a materiais descartados, surgida bem antes das campanhas de reciclagem, evoluiu naturalmente para a produção de papel, por iniciativa pessoal. “É uma pesquisa pessoal, com investimentos próprios, sem apoio e de forma voluntária”, ressalta ele.

Para o artista, além de suporte para trabalhos de pirogravura científica, os papéis artesanais também têm potencial para projetos de economia sustentável, com impacto reduzido sobre o meio ambiente (veja o Box). “Os danos ecológicos já foram feitos. Estou dando ideias sobre como aproveitar coisas que são problema no meio ambiente, como o lixo. Todo dia no mercadão, por exemplo, são jogadas toneladas de biomassa. E eu tenho pesquisas de papel feito com mais de 40 hortaliças”.

Hoje, a preocupação de Ayres é seguir com suas pesquisas e contribuir para a sociedade com suas descobertas. “Quero sempre buscar o aperfeiçoamento, e levar isso para a coletividade, para as escolas públicas. As crianças hoje trocam o lápis por aparelhos modernos. Isso é ruim; elas precisam de arte”.

Caseiro e sustentável

As pesquisas de Haroldo Ayres na produção de papel a partir de fibras vegetais resultaram em projetos que podem ser difundidos entre a população. “Desenvolve técnicas para essa produção utilizando utensílios domésticos, como liquidificador ou batedor de bolo, em vez de estufas ou caldeiras como há na indústria”, explica ele. O cunho caseiro se estende também aos insumos necessários para essa produção: “Na indústria se usam produtos químicos, mas na cozinha temos coisas como limão, vinagre, essência de alho, que é bactericida, ou de cravinho, antifungicida”, exemplica.

Os projetos, na visão de Ayres, podem contribuir para o desenvolvimento social, educativo e econômico em comunidades e áreas periféricas. “Meu ideal é difundir esse projeto como forma de terapia ocupacional, de arteterapia ou mesmo de atividade econômica. Esse trabalho pode servir até mesmo como fonte de renda para uma comunidade”, exemplifica o artista.

Fibras vegetais

Há vários anos, Haroldo Ayres vem pesquisando o uso de fibras vegetais na fabricação artesanal de papel. Entre outros produtos, muitos encontrados facilmente na região, ele experimentou materiais como patchouli (na foto acima), capim canarana e talo de buriti.

Exposição

Haroldo Ayres busca apoio para promover uma grande exposição de seu trabalho com ilustrações científicas e pirogravura. Seu acervo reúne centenas de reprodução de fauna, flora e anatomia humana.

Materiais

Além de hortaliças e outras matérias- primas orgânicas para a produção artesanal de papel, Haroldo Ayres também tem projetos para reaproveita- mento e reciclagem de outros materiais comumente descartados, como formas de ovos ou sacos de cimento.