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Jovens enfrentam a ditadura da magreza

'Magricelas' pela própria natureza vão à luta para ganhar mais peso e questionam o culto pela magreza

Magreza nem sempre é sinônimo de bem-estar

Magreza nem sempre é sinônimo de bem-estar (Arquivo AC)

Recentemente a cantora britânica Jessie J postou uma imagem em que aparece de biquíni em seu Instagram. Visivelmente mais forte, a artista revelou, na legenda, que uma de suas metas para 2014 é ganhar peso. Em meio aos milhares de comentários que questionavam (muitas vezes com bombardeios de incompreensão) a decisão de Jessie, ela confidenciou que não se sente bem com o corpo atual e que está constantemente tentando engordar. Praticamente às vésperas do Carnaval, onde o foco da grande maioria é enxugar os quilinhos a mais, há também aqueles que vivem diariamente na pele os prós e os contras de uma silhueta mais fina. E que enfatizam, em coro: magreza nem sempre é sinônimo de satisfação pessoal.

Vestir roupas da sessão infantil era, até pouquíssimo tempo, um dos dilemas vivenciados pela acadêmica de enfermagem Tamyne Ismael, 21. Além das piadinhas que sofreu na infância e adolescência (que ela alega não a terem traumatizado), ela afirma que gosta mais do seu corpo quando está mais “gordinha”. A moça possui 52 kg distribuídos em 1,62 cm de altura. “Eu como muito, de duas em duas horas, mas perco peso em questão de uma semana. As pessoas dizem que sou doida, porque enquanto todo mundo quer emagrecer, eu quero engordar. Só quem é magro sabe como é ruim, ainda mais sendo mulher nos dias de hoje, em que a sociedade dá preferência para as mulheres de ‘corpão’. Há vantagens na questão de saúde, mas esteticamente é ruim”, pondera ela, que veste de 36 a 34 (quando emagrece).

Os exercícios físicos são os atuais grandes aliados do estudante de publicidade Ladislau Neto, 18. A vergonha de tirar a blusa era uma constante em sua vida. Os 1,89 cm de altura, para o rapaz, não se encaixavam aos 57 kg que ele tinha antes de começar a malhar. Neto, que foi integralmente acompanhado por médicos na tentativa de engordar, segue atualmente uma dieta que inclui batata doce e frango, refeições a cada 3 horas, somadas às práticas físicas. “Isso sem deixar de me suplementar antes, durante e depois do treino. Todos os meus suplementos passaram pelo aval da minha médica”, conta. Hoje a realidade é diferente: após 3 meses de malhação, Ladislau engordou 5 kg, e pretende chegar aos 95 kg de massa magra. “Se a pessoa não está satisfeita com o que é, tem o direito de mudar. Muitos dizem que ‘ser magro é bom’ e que meu ‘físico é ótimo’, mas não me sinto bem assim. E não é por conta da vaidade, e sim da saúde”, revela o estudante.

Desde os 15 anos a designer Mayana Nobre, 26, luta para ganhar peso. Para ela, a pior parte enquanto mulher é ter visto as amigas na adolescência naturalmente “criando corpo”. “E quem tem dificuldade de engordar se pergunta: ‘quando é que vai acontecer comigo?’”, coloca Nobre. Ainda segundo ela, os 40 kg distribuídos em 1,55 cm sempre fizeram com que outras pessoas a “olhassem torto”.

Ela informa que já foi em todos os especialistas possíveis, que garantem não detectar nenhuma anormalidade. “Minha saúde é totalmente normal, meu metabolismo que é ultra acelerado”, diz.

Os julgamentos são a pior parte, segundo ela. “Primeiro que algumas pessoas já nos julgam antes disso, achando que nossa magreza é resultado de distúrbios alimentares. Como se todo mundo tivesse tendência a engordar e quem não engorda é porque tem problema. Estar magra pode ser um ideal buscado por muitas mulheres, e alguma de fato rompem a barreira do saudável atrás disso. Nas revistas e passarelas é ideal de beleza, mas as mulheres comuns que são mesmo super magras, são muito mal vistas, no sentido de acharem anti-saudável e nada sexy. Ser extremamente magra não é visto com bons olhos”, finaliza.

A medicina explica

De acordo com o médico endocrinologista Mário Quadros, deve-se diferenciar a magreza constitucional (magro de nascença) da magreza doença. “Os magros constitucionais o são desde o nascimento e têm parentes magros também. São saudáveis e não têm nenhuma alteração nos exames de rotina. Já os magros por doença tem histórico de emagrecimento lento associado com outros sintomas”, afirma ele, lembrando que dentre as doenças endócrinas, as mais comuns são os distúrbio da Tiróide e diabetes inicial, que acarretam em magreza.

O médico pontua que é mais difícil um magro engordar do que uma pessoa acima do peso emagrecer. O gordo já foi magro um dia e mudanças comportamentais e ambientais o engordaram, então, as modificações desses maus hábitos o levarão a emagrecer novamente. Enquanto os magros, que nunca mudaram seus hábitos, nunca foram gordos, têm dificuldade em mudar seus comportamentos. É um mito dizer que vitamina engorda. O que engorda é o que tem caloria, as vitaminas não possuem calorias”, coloca Quadros.

E há casos de pessoas que mesmo fazendo dietas hipercalóricas e sem atividade física não conseguem aumentar peso. “A explicação é genética, estes organismos têm uma incrível capacidade de adaptar o gasto calórico diário à ingestão de calorias, isto é, se ingerir muita caloria ele queima mais por meio da aceleração metabólica equilibrando o peso no mesmo valor”, conclui o especialista.

A psicologia pondera

Segundo a psicóloga Grace Araújo, é dito hoje que vive-se a ditadura da magreza, onde para ser aceito socialmente é necessário ser magro. E que por vezes, nem o próprio magro consegue entender tal imposição. “E como a regra fundamental de toda a ditadura é se abolir a diversidade, se eu digo que quero engordar na nossa realidade atual, com certeza serei visto como louco, e dificilmente se dará credibilidade  ao meu discurso. E aí surgirá o sentimento de inadequação”, descreve Grace.

O que é preciso levar em consideração para o combate às ditaduras, conforme a psicóloga, é que sejam quais forem estas, cada pessoa tem a sua realidade  individual. “Enquanto muitos estão querendo emagrecer, eu posso estar querendo engordar, por uma série de motivos, mesmo vivendo em uma sociedade que me cobra o contrário”, diz Araújo. 

Ela concorda que o correto não é fazer apologia ao baixo ou alto peso, e sim à saúde e ao bem-estar.

“Acho que são conceitos básicos nesse contexto: o sentir-se bem com o  próprio corpo, a saúde e o bem estar pessoal. E o fato da pessoa procurar se conhecer e descobrir o próprio corpo, com certeza irá ajudar a encontrar  formas saudáveis de ganhar ou perder peso”, encerra a profissional.

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