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Legado de arte: os doces 90 anos de Zezé Pio de Souza

Prestes a completar 90 anos no próximo dia 6 de abril, a delicada senhora carrega na sua história de vida um legado tão doce quanto os bolos confeitados e uma personalidade tão forte quanto os traçados de seus pincéis

Além de pintar quadros com temática religiosa, Zezé também já se arriscou em pintar porcelanas, trabalho que ela deixou para trás

Além de pintar quadros com temática religiosa, Zezé também já se arriscou em pintar porcelanas, trabalho que ela deixou para trás (Clóvis Miranda)

As mágicas mãos de Zezé Pio de Souza delinearam durante uma vida inteira dois afazeres distintos – e não menos significativos: a arte de confeitar e pintar. Prestes a completar 90 anos no próximo dia 6 de abril, a delicada senhora carrega na sua história de vida um legado tão doce quanto os bolos confeitados e uma personalidade tão forte quanto os traçados de seus pincéis.

A vontade de aprender foi o que fez Zezé mergulhar no saboroso mundo da confeitaria, por volta de seus 22 anos de idade. Na época, onde se desconhecia as práticas industriais sobre bolos e doces, Pio desenvolveu o dom que tinha para confeitar de forma autodidata. “Não tive aula de confeitaria com ninguém. Depois comecei a ler livros da área”, pondera.

A desenvoltura com a massa de trigo foi tanta que Pio se tornou confeiteira fidelizada por tradicionais famílias manauaras, como Braga e Calderaro. Aniversários, reuniões e festas de casamento do período sempre eram decorados pelas mãos da ex-confeiteira, que acompanhava com seus doces as gerações de pais, filhos e netos de cada genealogia. “Já fiz bolos para muita gente, mas sempre me concentrei em fazer bolos para meus amigos”, conta ela, longe da confeitaria há 20 anos, em decorrência do avanço de uma osteoporose.

“Fui para o universo da pintura depois que parei de confeitar. Mas antes eu confeitava e pintava tecidos, porcelanas, entre outros. Os confeites eram todos manuais. Para compor meus bolos usava coco, clara de ovo, açúcar, limão, e pintava os bolos com a mesma tinta do confeito, que não era moderna, mas sim artesanal. Utilizava para preparar meus bolos apenas espátulas e bicos de confeitar”, pondera.

Tantas famílias com alegrias compartilhadas jamais comprometeram o esmero de suas mãos para com o seu próprio núcleo familiar. “Fiz todos os bolos de casamento da minha família. Filhos, filhas e outros parentes. Eram bolos simples, com manteiga. Nunca usei pão-de-ló, apenas o trigo”, conta a senhora. Zezé, por sua vez, não deixa de observar a realidade atual.

“A diferença é que na época não se faziam os bolos que fazem agora, com massa americana e cores vivas. Esses preparos estão atualmente muito industrializados, o que faz perder um pouco a essência do carinho familiar. Se você vai pra cozinha, tem que fazer um alimento saudável e gostoso. Se você fizer algo contra sua vontade, acaba colocando o aborrecimento no alimento e isso não é bom”, orienta Zezé.

Válvula de escape

A doença impede que Pio volte a confeitar, mas não a impede de desempenhar a arte sobre as telas. Ela, que atualmente se dedica à pintura com óleo sobre tela, tem uma verdadeira paixão por pintar obras sacras, que envolvam santos e religião, apesar de também ter contato com obras de natureza morta e flores. “Sou religiosa, mas não sou dessas mais radicais. Minha primeira professora de pintura foi Cláudia Antônia, depois Edson Queiroz. Com isso, aí me dediquei”, destaca a pintora.

Ela diz não recordar exatamente a época em que começou a pintar, tampouco a quantidade de obras que vendeu, mas a artista diz que já pinta há muito tempo. “Pinto muito para a família, para minhas filhas e noras. Tenho uma certa restrição no meu trabalho porque não gosto de nada mal feito, e sim com zelo”.

A artista revela não ter pintado muitas paisagens na vida, por acreditar “não ser seu estilo”. “Já pintei porcelanas, mas deixei de fazê-lo porque tem que fazer a queima da peça no forno e não queria mais”, relembra.

Apesar de ter tanto o que ensinar, Zezé Pio assegura que gosta muito de aprender. Ao olhar fotos antigas de seus bolos, ela memoriza na alma as alegrias e a simplicidade de tanta doçura já compartilhada. E em seus quadros, as cores e os desenhos de uma missão cumprida. Com as mãos.