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'Ser do Norte está na moda', diz Gaby Amarantos

'Eu acho que esse preconceito é um preconceito que a gente tem aqui por nós mesmos. Porque lá fora as pessoas veem o Norte como uma coisa linda, exuberante. O questionamento é esse: acho que a gente tem que parar de ser maria-vai-com-as-outras e compreender que o que a gente tem é muito bom', salientou a cantora paraense sobre o povo e a música nortista

A cantora paraense e rainha do tecnobrega, Gaby Amarantos, passou de 'mulher do Norte' à uma das principais precursoras de um gênero que só cresce no Brasil. Atualmente, ela faz sucesso e está entre as principais cantoras do país. Em entrevista exclusiva à equipe de A CRÍTICA, ela fala sobre a cultura amazônida e sobre a utilização dela como sua arma principal, rumo ao resto do país e ao exterior. Ela ainda conta detalhes sobre o novo álbum, que está em fase de pré-produção, o DVD 'Live In Jurunas' e a parceria com o cineasta francês Vicent Moon, sobre a música 'One Way Trigger', do The Strokes e a afirmação do rock enquanto 'pai' do tecnobrega.

AC - Você é uma mulher que reúne uma série de linguagens, tanto na sua música, quanto nas suas roupas, e nos seus gestos. O que a Gaby Amarantos, como artista e como mulher do Norte quer dizer com a reunião de todas essas linguagens?

GA - Na verdade, eu me proponho a fazer algo diferente, e principalmente eu tenho muito orgulho das minhas raízes. E lá fora se fala muito em outras regiões, tirando a nossa, que as pessoas elas gostam muito de ver isso. Que eu levanto muito que sou do Norte, sou de Jurunas, sou da periferia, tenho origens indígenas, então as pessoas ficam “Caramba, que legal, ela fala do jeito que ela é da cultura dela com orgulho”. E eu acho que o fato de eu continuar morando no mesmo lugar, de eu levar a mesma vida, mesmo com essa fama toda, também deixa as pessoas muito surpresas. Eu procuro mostrar para as pessoas que, além de mim, existe uma cena cultural que nem eu conheço toda aqui na nossa região, e que o Brasil precisa conhecer aqui, como os artistas. A gente está bombando em tudo, na minha opinião: na culinária, nas atrações turísticas... muita gente vem passear aqui em Manaus, no Pará, no Acre, e falam “Caramba, de tanto ouvir você falar eu vim, e estou vendo que é lindo isso aqui, que não precisei ir para fora pra ver o quanto o nosso país é bonito”. Então está rolando uma autovalorização da nossa cultura, e na verdade um autoconhecimento do próprio país, de saber o que está acontecendo nas regiões. E o Norte está vivendo um momento muito bacana. Ser do Norte está na moda. E eu acho que estou contribuindo para isso, mas isso é papel de todos nós.

AC - Quais são as suas influências musicais? O que constrói a Gaby Amarantos enquanto artista?

GA - Bom, são muitas influências! Venho do samba, acima de tudo a minha família é de sambistas. Então o samba foi o primeiro estilo que, quando cheguei da maternidade já estava rolando na minha casa (risos). A gente tem uma escola de samba até hoje. Inclusive eu estou muito feliz, porque esse ano eu vou desfilar na Imperatriz, que vai homenagear o Pará, então eu vou estar lá representando a música do Norte. E a música do Norte em si, não só a música que a gente faz aqui na região, mas a influência da nossa Amazônia Legal e total como um todo, porque a gente tem uma parte da Amazônia muito caribenha, muito latina, e eu cresci ouvindo tudo isso, misturado com essa coisa da modernidade, da internet, da música eletrônica. E eu procuro levar para o Brasil essa nova música brasileira, que a gente está fazendo aqui no Norte.


AC - O que você acha dos fãs do Amazonas?

GA - Eu fico muito feliz com o carinho, porque se fala de uma rivalidade entre Pará, entre Belém e Manaus, e eu sinceramente nunca senti isso. Desde a primeira vez que eu cheguei aqui eu fui tratada com muito carinho. Nas redes sociais, as pessoas perguntam “Quando é que você vai chegar?”. Hoje (na última sexta [25], quando Gaby se apresentou em Manaus) tinham fãs esperando no aeroporto, na porta do hotel, e eu falei “Cara, a cada vez que eu venho a coisa aumenta! (risos)”, e então eu adoro fazer show aqui, e eu gosto muito dessa coisa que o manauara tem. Muita gente pergunta se eu sou daqui, por causa dos meus figurinos, por causa de Parintins que também é muito conhecido lá fora, dos bois. As pessoas perguntam: “Ah, você usa aquelas roupas, parece aqueles bois de Parintins”, e eu falo “Também! Eu também sou, eu também me sinto fazendo parte disso tudo”.

AC - Os The Strokes liberaram uma música (One Way Trigger), e tem muita gente na internet comparando com tecnobrega. Eles, com certeza, não foram os primeiros e não vão ser os últimos a aderirem esse estilo, que de 2012 pra cá sofreu um ‘boom’, e grande parte disso por sua causa. Como você se sente, sabendo que você ajudou a imagem do tecnobrega, tirando aquele conceito de  imagem escrachada e transformando nesse gênero que todos querem trabalhar?

GA - Não acho que é uma responsabilidade minha, e nem nunca só minha. Eu resolvi trabalhar com esse estilo porque eu me apaixonei por ele. Mas já tinha pessoas no Pará fazendo esse estilo. O tecnobrega é difícil até dizer quem inventou, foram tantas pessoas que trouxeram e que agregaram valor a ele, e quando eu resolvi trabalhar com ele, ele era muito discriminado, muito marginalizado, e eu falei “Cara, quero agregar valor para isso”. E por isso que eu fiz o ‘Treme’ (primeiro álbum de Gaby). O ‘Treme’ ajudou a desmistificar isso, a mostrar a qualidade que a música pode ter quando ela se propõe a ser bem feita. Eu me surpreendi quando eu ouvi a faixa, eu aquei que, de repente, eles podem até nunca ter ouvido tecnobrega, eu acho difícil, porque eu achei muito tecnobrega. Tem um solinhos, tem uma batidinha, e eu acho que o rock, com todas as suas vertentes, ele é um pai do tecnobrega. O tecnobrega veio disso tudo. Então eu acho que é a gente devolvendo, é a gente bebendo na fonte um do outro... então foi muito bacana. Gerou um polêmica, daqui a pouco tem vários jornalistas querendo me ligar para saber. Como as pessoas ficam, assim, essa mania que o brasileiro tem de só dar valor na coisa depois que alguém lá fora grava, ou que alguém lá fora diz que é legal. Então acho que o questionamento é esse: acho que a gente tem que parar de ser maria-vai-com-as-outras e compreender que o que a gente tem é muito bom.

AC - Em relação à imagem da mulher nortista: não só da mulher, mas também do povo do Norte. Ainda há muito preconceito, de certa forma. Você acha que também ajudou a tirar a imagem negativa que alguns têm?   

GA - Eu acho que esse preconceito é um preconceito que a gente tem aqui por nós mesmos. Porque lá fora as pessoas veem o Norte como uma coisa linda, exuberante, Amazônia, fauna, flora. Quando você fala que você é do Norte, do Pará, do Amazonas, as pessoas dizem “Cara, eu sou louco para ir, eu quero conhecer, eu ouvi falar”, então há uma aceitação. Já ouvi muita gente dizer que queria ter nascido aqui. Eu tenho amigos jornalistas, formadores de opinião, que falam “Cara, eu quero me mudar para o Norte, eu quero morar em Belém, quero morar no Acre, eu quero morar em Manaus”, pessoas que estão apaixonadas! Então, a gente é que ainda tem esse preconceito. A gente é quem tem que acabar, é uma coisa interna nossa. Entender que a gente está em um momento muito bacana do país estar nos descobrindo, descobrindo a nossa cultura. E eu não me sinto a representante de um modo geral, porque as mulheres não se vestem como eu, eu tenho uma forma própria de me vestir (risos). Mas acho que o que eu represento é essa coisa da mulher guerreira. A capa do disco ‘Treme’ tem uns raios saindo dos peitos, e a floresta misturada com soundsystem... é essa questão de estar aqui e dizer “Vou abrir meu espaço, sou do Norte, sou índia e tenho orgulho dessa minha origem. Ando aqui com a minha pulseira mostrando para as pessoas esse orgulho que eu tenho da minha origem. Lá fora está todo mundo muito apaixonado, a gente é quem tem que acabar com esse preconceito interno que existe aqui.


AC - E os projetos de 2013? O que o país pode esperar da Gaby Amarantos esse ano?

GA - Esse ano a gente vai trabalhar muito (risos). A gente está lançando agora o DVD ‘Live In Jurunas’, que foi dirigido pela Priscilla Brasil, que é a cineasta que faz os meus clipes e pelo Vicent Moon, que é um cineasta francês, e vai ser todo pela internet, a gente vai disponibilizar e todo mundo vai poder assistir. Já estamos preparando um novo DVD que a gente vai gravar no primeiro semestre também, e já estamos na pré-produção do segundo disco, que já está correndo com tudo, com participações, mas ainda está muito no embrião, ainda discutindo repertório. Mas vai ter muito trabalho nesse ano.

AC - O que você pode adiantar do seu novo disco?

GA - Está muito no embrião ainda. A gente está na seleção de repertório, mas a gente vai fazer um primeiro single que deve ter a participação de um artista nacional, estávamos discutindo sobre isso, e que a gente vai lançar esse single para ser o ‘esquenta’ do disco, parecido com o que a gente fez com a música ‘Xirley’: lançamos a ‘Xirley’ e depois veio o ‘Treme’. Pretendemos fazer o single e depois vamos lançar o CD.

AC - E tem previsão para o lançamento desse single?

GA - Esse single deve vir logo. Eu acredito que depois do Carnaval a gente já está lançando ele. A gente só está esperando uma autorização, porque é uma versão de uma música internacional, mas como tem gravadora, então a negociação é mais fácil, mais tranquila. Então está rolando um empenho muito grande da Som Livre lá, de conseguir a autorização, para a gente já gravar essa música o mais rápido possível.

AC - Há algum projeto de parceria com algum artista local? Não necessariamente do Amazonas, mas de algum estado da Região Norte do país?

GA - Eu estou com muita vontade, agora há pouco alguém estava me questionando isso, tipo “Porque que você não mostra os artistas?”. Eu quero muito poder proporcionar isso, mas eu acredito que ainda precisa ter mais um entendimento dessa nossa cultura, para que a gente possa abrir portas para outros, para não acontecer um movimento isolado, como já aconteceu antes. Então, acho que as pessoas precisam entender mais, para eu poder falar “Mas tem fulano, também tem ciclano”. A minha vontade é poder abrir para todo mundo (risos).

AC - E em relação à sua turnê internacional?

GA - A gente deve sair no segundo semestre. Devemos começar pela Europa, já estamos com nosso CD sendo comercializado na Europa, Ásia e Estados Unidos. Acredito que no segundo semestre a gente vai tremer o mundo! (risos).