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Saxofonista Leo Gandelman se apresenta pela 1ª vez em Manaus

O músico carioca retorna à cidade para seu primeiro show na cidade aberto ao grande público, no dia 29 de junho, dentro do 9º Festival Amazonas Jazz (FAJ)

Leo Gandelman traz a Manaus o show do álbum “Vip vop”, lançado em 2012

Leo Gandelman traz a Manaus o show do álbum “Vip vop”, lançado em 2012 (Divulgação)

Leo Gandelman se apresentou em Manaus uma única vez, num evento particular, logo depois de lançar seu primeiro disco, em 1987. Quase 30 anos mais tarde, o saxofonista de renome internacional enfim retorna à cidade para seu primeiro show na cidade aberto ao grande público, no dia 29, domingo, no Teatro Amazonas, dentro do 9º Festival Amazonas Jazz (FAJ). E ele já antecipa boas expectativas quanto ao retorno. “Tenho certeza de que vai ser fantástico”, declarou o instrumentista por telefone, do Rio de Janeiro, onde vive.

A participação de Gandelman no FAJ já era aguardada há bastante tempo: o nome do saxofonista, era um dos mais solicitados por músicos e artistas locais, reconhecimento que reflete seu prestígio na cena musical brasileira como um todo, e pelo qual ele se diz “honrado”. “Para quem trabalha por ideal, por sonho, o reconhecimento do público é o maior reconhecimento”, afirma ele, que por 15 anos foi apontado como melhor instrumentista por leitores do “Jornal do Brasil”. “Isso é muito importante, pois é o ‘resultado das urnas’”.

No palco

Em Manaus, Gandelman apresentará o show de um de seus trabalhos mais recentes, “Vip vop”. Lançado há dois anos em CD e DVD, o disco autoral é inspirado na produção musical do Rio de Janeiro nas décadas de 1950 e 1960. “São composições dentro da estética da Bossa Nova e do sambajazz, e uma homenagem a músicos que tornaram a música brasileira internacional”, explica o instrumentista, que tocará num quinteto, com a participação especial de Serginho Trombone.

Além das músicas de “Vip vop”, Gandelman incluirá no repertório algumas composições que marcaram a sua trajetória. Entre elas está “Solar”, faixa-título de um álbum lançado em 1990 e resultado de sua parceria com William Magalhães. Este, vale dizer, é filho do saudoso saxofonista Oberdan Magalhães, ao lado de quem Gandelman trabalhou num histórico naipe de sopros, entre final dos anos 1970 e início dos 1980, e que ele cita como uma de suas referências musicais.

“Nivaldo Ornellas e Oberdan Magalhães. Quando voltei a tocar no Brasil (vindo dos Estados Unidos, onde estudou na Berklee College of Music), em 1979, o (clarinetista) Paulo Moura foi minha maior referência. Sempre curti muito Wayne Shorter era outro que ouvia bastante, mesmo antes de começar a tocar. E, mais tarde, o John Coltrane, que considero o pai de todo saxofonista”, recorda.

Produção

Leo Gandelman lançou seu primeiro e homônimo álbum em 1987, e desde lá mantém uma produção regular que inclui, entre outros, “Visões” (1991) e “Pérolas negras” (1996). Em 1998, ele lançou um selo Saxsamba, pelo qual saíram “Brazilian soul” e “Lounjazz” (2005), para citar alguns.

“A missão de ser empreendedor, de financiar e fabricar, é uma coisa difícil para o artista, pois não tem a ver com a criação artística, consome tempo, trabalho, suor, staff. Mas foi algo que fiz pela necessidade de continuar criando e de fazer essas criações chegarem ao público de forma mais justa”, explica ele, que considera o mercado fonográfico da atualidade “extremamente decadente”. “Quando apareceram os primeiros serviços de streaming, isso bagunçou o mercado para artistas da música, compositores. A indústria fonográfica foi reduzida a uma fração do que já foi”.

O trabalho mais recente de Gandelman é “Ventos do Norte”, em que ele dá continuidade a um mapeamento da construção da linguagem do saxofone no Brasil, iniciada com o premiado “Radamés e o sax”, de 2007. “Nele eu mostro como Radamés Gnattali privilegiou o instrumento. Já ‘Ventos do Norte’ mostra a vinda dos artistas nordestinos para o Rio de Janeiro, como Ratinho, Cachimbinho, Luiz Americano, Moacir Santos. Com outros músicos cariocas, eles construíram um caminho para o sax”, explica.

Com “Radamés e o sax”, Gandelman recebeu os Prêmios Tim de CD Instrumental e Produção Musical – mais um reconhecimento a um dos artistas mais talentosos do sax brasileiro. A receita do sucesso, ele afirma, é a dedicação: “A música que a gente gosta, para se tornar realidade, precisa de muita devoção, paciência consigo mesmo. E acreditar no sonho”.

Mais espaço para o jazz

Nome frequente em festivais de jazz no Brasil e em outros países, Leo Gandelman avalia que o gênero surgido nos Estados Unidos no início do século 20 expandiu suas fronteiras conceituais para abranger diversos estilos musicais. “O jazz, para mim, é o maior legado da música norte-americana, mas é basicamente a organização do improviso. Hoje se fala em ‘música improvisada’. E o improviso faz parte de todo tipo de música: chorinho, samba, bossa nova, qualquer estilo hoje trabalha com o jazz”, opina ele.

Para o saxofonista carioca, o crescimento do circuito jazzístico, com vários eventos do gênero surgidos na última década (entre eles o FAJ), reflete a necessidade de se ter um espaço maior para a produção musical menos afeita às massas. “A música que a gente faz é, antes de mais nada, alternativa, pois não está contida na mídia massiva. O surgimento de vários festivais de jazz vem mostrar, primeiro, que o povo brasileiro é extremamente musical, e segundo, que nem todos vivem do que está contido na mídia massiva. Há uma necessidade de diversidade, e a música brasileira é muito rica. A instrumental tem várias vertentes. O público tem necessidade de consumir esse tipo de música, faz parte da necessidade espiritual das pessoas”.

Evento terá grandes atrações

Além de Leo Gandelman, o FAJ trará outras atrações de peso ao palco do Teatro Amazonas. Já na primeira noite do evento, no dia 26, quinta-feira, o trompetista carioca radicado em Nova York, Cláudio Roditi, apresenta-se ao lado da Amazonas Band, sob a regência do titular da orquestra, Rui Carvalho. O harpista colombiano se apresenta na mesma noite no palco do Teatro Amazonas.

No dia 27, sexta, o evento terá como atrações o grupo amazonense Cordão do Marambaia e o baterista cubano Dafnis Prieto – cuja música tem a força de “um asteroide atingindo a Terra”, de acordo com o jornal “The New York Times”. No dia 28, sábado, quem passa pelo palco do TA são o pianista Diego Schissi, representando uma geração de músicos da Argentina que promove releituras do tango, e Débora e Dani Gurgel Quarteto, exibindo seu mais recente trabalho, o álbum “Um”.

No dia 29, domingo, além de Gandelman, o FAJ apresenta o show de Luiz Bonilla, trombonista, compositor e arranjador costarriquenho radicado em Nova York, com seu versátil quinteto.

No encerramento, no dia 30, segunda, os shows ficam por conta do pianista e compositor sueco, Bo Stenson, e de Naná Vasconcelos. Atração mais aguardada do FAJ, o percussionista pernambucano reedita no palco sua inusitada parceria com o violoncelista Lui Coimbra.