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Diretor de cinema destaca a importância da sétima arte na Amazônia, em entrevista

De passagem por Manaus, diretor Ruy Guerra, 82, do clássico “Os cafajestes”, fala de cinema na Amazônia e no Brasil, e de alguns dos filmes que dirigiu

Ruy Guerra é um dos nomes-chaves do Cinema Novo

Ruy Guerra é um dos nomes-chaves do Cinema Novo (Lucas Silva)

O desenvolvimento do setor audiovisual numa cidade passa necessariamente pelo investimento na formação e pelo estímulo à produção cinematográfica local. A opinião é de ninguém menos que Ruy Guerra, 82, um dos nomes-chave do Cinema Novo, que deu novo fôlego à produção cinematográfica brasileira a partir dos anos 1950. “Além de um curso de cinema ou audiovisual, é preciso que haja também fomento à atividade por parte do Governo”, defende o cineasta.

Guerra, que encerrou ontem uma oficina para alunos do curso de Tecnologia em Produção Audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), concedeu entrevista exclusiva à reportagem, na qual fala da produção e do mercado de cinema na Amazônia e no Brasil, e de alguns filmes que dirigiu, entre eles o emblemático “Os cafajestes”, de 1962. Confira!

A seu ver, o que é essencial para o desenvolvimento do segmento audiovisual onde ele ainda é incipiente?

Além de um curso de cinema ou audiovisual, é preciso que haja também fomento à atividade por parte do Governo. Os realizadores precisam ainda de uma base para captar recursos, inclusive de empresas, para desenvolver seus curtas, médias ou longas-metragens. Do contrário, o mercado fica restrito à publicidade e, eventualmente, os profissionais formados num lugar terão de ir a outras cidades em busca de mercados que possam absorvê-los.

O apoio da iniciativa privada é fundamental, ou dá para passar sem ele?

Esse apoio precisa ser instrumentalizado por meio de leis de incentivo fiscal. Não dá para correr de porta em porta.

Como avalia o cinema feito no Brasil hoje?

Há um cinema comercial que é praticamente uma “sequela” da TV, mas que tem que existir e deve existir. E há um outro cinema, que tem preocupação por questões importantes, mas de filmes que sempre têm muita dificuldade de distribuição e exibição. E não há vontade política de mudar isso – as leis são feitas aos trancos, e as estruturas da Ancine (Agência Nacional de Cinema) são muito burocratizadas e com quadros de competência questionável. Isso tudo atravanca o processo de produção no País.

A seu ver, que lugar o cinema feito no País ocupa no mercado internacional?

É sempre difícil avaliar o mercado. Não temos mecanismos de divulgação no exterior, e mesmo nos festivais a representatividade do Brasil é reduzida. Poucos filmes têm impacto para atravessar as fronteiras. Além disso, lá fora se tem uma imagem do que é o Brasil, e os filmes que não se encaixam nela não interessam. Hoje, por exemplo, é a questão da violência urbana; ontem, eram o Carnaval, as belezas naturais.

A Amazônia também costuma atrair o interesse no cenário mundial. O que acha disso, considerando que o segmento ainda é restrito na região?

Sim, a Amazônia é uma marca forte em muitos aspectos – na saúde do planeta, na questão dos índios e por aí vai. Todos se interessam pela região, portanto há um grande potencial de distribuição do que é feito aqui. Mas esse potencial é pouco explorado por não se ter ainda um núcleo de cinema amazônico, e porque é caro para cineastas de outros lugares filmar aqui, por conta da infraestrutura ou das distâncias. Se o Estado apoiasse, seria mais fácil, mas não há apoio. Assim, a Amazônia é pouco vista no cinema, apesar do interesse que suscita.

“Os cafajestes” (1962) é o filme pelo qual você é mais lembrado. O que lembra da produção, e como vê o status que o longa ocupa até hoje na cinematografia brasileira?

Era uma época de transição, em que só se fazia chanchada no Rio de Janeiro e a Veracruz acabara de ser extinta. O filme rompeu o marasmo do momento. É iconoclasta, com propostas novas no cinema, sem falar da temática e da nudez de Norma Bengell. Foi o primeiro grande sucesso do Cinema Novo. Após tantos anos, revi o filme e acho que ele se mantém de pé e segue bastante atual.

Como entrou no projeto?

Foi um projeto que criei ao lado do Miguel Torres, ator e roteirista baiano, e com Jece Valadão, que atuou um pouco no lado da produção. A Norma nem recebia cachê. Formamos uma cooperativa, e fizemos com um dinheiro mínimo para pagar o celuloide.

“Os fuzis” (1964) lhe rendeu um Urso de Prata de Direção em Berlim. O que recorda dessa produção?

Era um projeto que tinha há algum tempo e que adaptei para o Nordeste. Tentei filmar na Grécia, mas a censura não deixou. O projeto era sobre uma aldeia atacada pelos lobos a cada inverno. Os aldeões pediam às autoridades armas para se proteger, mas o pedido era negado por medo de rebeliões. Transformei os lobos da ideia original nos famintos da seca.

Que rumos o cinema nacional seguirá daqui para a frente, na sua visão?

Não tenho ideia. Tudo dependerá da vontade política dos dirigentes, dos próprios cineastas. Hoje se produz tanto quanto há 50 anos, mas seguindo um modelo norte-americano, de espetáculo, de grandes orçamentos. Não sei em que medida os canais fechados darão espaço às novas produções, tanto mais com as séries americanas ocupando toda a programação. E há a chegada do digital, que muda muita coisa. São tantos fatores a considerar que qualquer opinião seria um mero palpite.

Que conselho daria a quem quer seguir carreira no cinema ou no audiovisual?

Não gosto de dar conselhos, pois experiência não se transmite falando. Mas diria uma frase de Jorge Luis Borges (escritor argentino), que dizia, “Seja fiel ao seu imaginário”. Para um cineasta, penso, o mais importante é ter talento e coragem de ser fiel ao seu imaginário.