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Figuras paternas viram tema de espetáculos teatrais em Manaus

Cias. de teatro manauara coletam os infortúnios de relações familiares e traduzem em apresentações para abril

“Pai” fala sobre os fantasmas que existem entre pai e filhos. “Casa de Franciscos” aborda identidade e consciência do outro

“Pai” fala sobre os fantasmas que existem entre pai e filhos. “Casa de Franciscos” aborda identidade e consciência do outro (Divulgação/Fabiele Vieira )

A paternidade é um tema que sempre cerca canções ao redor do País e mundo, a exemplo da antológica “Pai”, do cantor Fábio Jr. Mas alguns espetáculos teatrais da capital amazonense têm estreitado os laços com a tradicional figura masculina familiar. A montagem “Casa de Franciscos: quem nasce Antônio é rei” (R$ 10), do núcleo de teatro Soufflé de Bodó Company, estreará no dia 02 de abril, às 20h, no Sindicato de Telecomunicações do Amazonas (Sinttel). Logo após, o Cartolas Produções entra em cartaz com o espetáculo “Pai” (gratuito), no dia 08 de abril, às 20h, no Sesc-AM, inserida na Mostra de Teatro do Sesc - com início no próximo dia 27 de março.

Fundada em dezembro do ano passado, a Soufflé Bodó Company é uma companhia bi-estadual, onde os integrantes Francis Madson (responsável pela direção e provocação da montagem), Israel Castro, Denis Carvalho e Felipe Maia Jatobá se dividem entre os estados do Amazonas e Rondônia. Segundo Madson, o termo “provocador” está relacionado ao manuseio dos elementos que a peça dispõe, de modo a usar estes para provocar as reflexões e mensagens. “Não se trata de um papel ou função diferente. Denomino-me ‘provocador’ porque o projeto é construído coletivamente”, pondera ele.

A peça conta a história de uma família de acaris-bodó, constantemente deslocada para outros lugares. E é justamente a luta da família pela identidade e para determinar territórios que causa os grandes infortúnios, tristezas e alegrias, coloca Francis. “É um trabalho que aborda a maneira com que você determina o seu lugar e conhece o lugar do outro. Apesar de ser uma metáfora em relação à família, a montagem não trata sobre um assunto muito pertinente, mas sim sobre a maneira em que o outro é presente na sua vida”, destaca ele. Os peixes não possuem nome, porque o espetáculo não atende à composição clássica de personagens, pontua Madson.

CONCEPÇÃO

Em processo desde 2013, o diretor-provocador destaca que o treinamento corporal e a leitura da obra de importantes dramaturgos - como as do russo Anton Tchekhov e o suíço Valère Novarina – fizeram parte da concepção cênica do espetáculo. A figura do pai na peça, por sua vez, é trabalhada como a imagem do rei em questão, porém, em um sentido pejorativo, cercado pelos poderes absolutistas e diversos contrapontos. “À medida em que a família sai atrás de referências, afetos, identidade e território, o pai quer justamente determinar um lugar específico e estável, que vai totalmente contra a vida ‘líquida’ da sociedade contemporânea”, complementa Francis.

O termo “vida líquida”, por sua vez, compreende à tudo o que se tenta apalpar com a mão, mas que mesmo assim se esvai, justifica o diretor. “O pai quer apalpar tudo dentro da centralização. Ele quer muito ser o pai, mas não percebe que é um pouco mãe e um pouco filho ao mesmo tempo. O pai, na peça, não consegue medir isso”, coloca Francis.

O cenário e figurino da montagem são adeptos da simplicidade. A ideia nessa proposta é fazer o espetáculo acontecer com o mínimo de aparatos visuais, para evidenciar a teatralidade e o trabalho do ator. “Trabalhamos com elementos básicos, como um grande tapete verde-musgo, uma poltrona pequena e uma estante cheia de cacarecos; além do figurino, que apresenta roupas sociais em tons de verde”, diz o diretor, lembrando que seus trabalhos não costumam ser permeados por sonoplastia. “Entretanto, haverá uma música-tema a dar conta da história, que será de uma banda regional ainda não confirmada”, conclui.

“Pai”

Desenhos de pais e dois bonecos emolduram uma sala e compõem o sabor da ausência da figura paterna no texto do ator Jean Palladino, que também assina a direção do espetáculo. A montagem fala de um homem conhecido como Pai, mas que não é pai, porque não teve filhos. “Ele surge sentado em uma cadeira, acomodado com suas falhas e comendo sua sujeira, além de conviver com os fantasmas (filhos) que nunca teve. De outro lado, dois irmãos brincam com a ausência do pai que nunca tiveram e com os desenhos e bonecos, protótipos dessa imagem paterna incompleta. São duas histórias que se cruzam, se unem e se separam, por se tratar de uma ausência em comum, envolta por uma caixa de quebra-cabeça”, explica Palladino.

A montagem está em reta final de produção, e segue agora para a limpeza das cenas e a inserção dos elementos cenográficos, trilhas e testes de maquiagem. A trilha sonora envolve ruídos, vozes e uma voz em off que vem do rádio, acompanhada por uma espécie de chiado, pontua Jean. “São algumas frases produzidas pelo próprio elenco e alguns integrantes do trabalho no processo de jogos dramáticos e análise de texto”, complementa o diretor. No elenco estão os atores Taciano Soares (Pai), Clayson Charles (Filho) e Ive Rylo (Filha).

O cenário é uma caixa, e soa como um enorme quebra-cabeça, explica o diretor. “Os atores ficam lá dentro e o público assiste as primeiras cenas do lado de fora, vendo apenas por buracos de algumas peças do quebra-cabeça que estão faltando. Aos poucos, o quebra-cabeça se desfaz, retirado pelos próprios atores. No interior da caixa o espaço é dividido; de um lado está o universo do Pai, sentado em uma cadeira, um criado-mudo e um rádio. Do outro lado está os dois irmãos, cujo chão é coberto por desenhos. Nas extremidades há em cada ponto um ‘Boneco de Pai’ feito com objetos representativos; os bonecos são apenas tronco e cabeça”, justifica Palladino.

O figurino de “Pai” busca trazer um pouco da personalidade de cada um. “O Pai está com um pijama, pois logo irá dormir (morrer), os filhos têm uma personalidade oposta, mas se completam: a filha possui aparência doce e suave, mas muito rancorosa; e o figurino evidencia isso, contendo rachaduras e falhas. O filho já é mais frágil, e ao mesmo tempo possessivo nesse amor pelo pai que não o quis. As falhas do figurino sempre buscam evidenciar os personalidades e seus extremos”, conclui Jean.