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Thiago de Mello é homenageado com programação especial

‘Estatutos do Homem’, obra mais célebre do poeta em resposta ao Golpe Militar, completa 50 anos. O aniversário de 88 anos de Mello também será celebrado

Thiago de Mello escreveu os “Estatutos...” como resposta ao golpe militar

Thiago de Mello escreveu os “Estatutos...” como resposta ao golpe militar (Bruno Kelly)

Thiago de Mello estava no Chile quando recebeu a notícia do golpe militar no Brasil, no final de março de 1964. Outras novas não demoraram a chegar: em fotos de jornais, viam-se o líder camponês Gregório Bezerra preso e arrastado nas ruas do Recife, o escritor e crítico literário Astrojildo Pereira algemado na cama de uma cela. Na noite em que decidiu renunciar ao cargo de adido cultural do Brasil no país vizinho, que até então ocupava, Mello não conseguiu dormir; subiu à biblioteca da casa onde residia – hoje a Fundação Pablo Neruda – e escreveu um poema que se tornaria célebre. Seu título era “Estatutos do Homem”.

“Era minha resposta, como cidadão brasileiro e ser humano, a um país que era o meu, que oficializava a tortura e a expunha em público”, diz o poeta.

“Estatutos do Homem” completa 50 anos em 2014, e as comemorações pelo fato se unem à celebração pelo aniversário de 88 anos de Mello (30 de março) numa programação que a Editora e Livraria Valer promove de amanhã, dia 26, até sábado, em seu espaço cultural na rua Ramos Ferreira, 1.195, Centro.

A programação é gratuita e inicia às 17h de amanhã com “Thiago de Mello/50 anos Estatutos do Homem”, uma exposição reunindo dezenas de peças do acervo pessoal do poeta. Ela segue até a manhã do sábado, dia 29, com a realização de um Café da Manhã comemorativo. No evento, haverá a execução do poema musicado pelo maestro Adroaldo Cauduro, da Universidade do Estado do Amazonas; leituras poéticas; e mesa redonda sobre Mello e sua obra, com participação dos autores Zemaria Pinto, Elson Farias e Tenório Telles.

Versos indeléveis

Quando “Estatutos” veio à luz, causou enorme repercussão. “Os escritores todos vibraram”, recorda Mello, que dedicou o texto ao amigo e jornalista Carlos Heitor Cony. “Foi o primeiro escritor a publicar contra o regime, nas crônicas ‘Revolução dos Caranguejos’ e ‘O ato e o fato’ – que depois virou título de um de seus livros”, conta ele à reportagem.

Mello voltou ao Brasil em 1965, mas a perseguição pelo regime militar o levou de volta ao Chile, agora como exilado, em 1968. Além de Pablo Neruda, de quem era amigo, o amazonense reencontraria ali Salvador Allende, e testemunharia a posse do estadista chileno, em 1970, e sua violenta destituição, três anos mais tarde. “Horas depois da posse, ele me falou que as ondas do golpe no Brasil talvez atingissem o Chile. Ele foi profético”, conta.

Após o golpe, Mello acabou sendo perseguido também pela ditadura do General Pinochet. De Santiago, portanto, foi para a Alemanha, e resolveu voltar de lá um ano antes da Anistia no Brasil. “Eles não queriam me deixar voltar”, relembra o poeta, emocionado.

Repercussão

Os versos de “Estatutos do Homem” continuaram repercutindo durante muito tempo no Brasil. Na solenidade inaugural da Constituinte de 1988, o poema foi apresentado em forma de oratório, com música do também amazonense Claudio Santoro, na Praça dos Três Poderes. “Ulisses (Guimarães) me mandou uma carta dizendo que a Constituição tinha de ser ‘abençoada’ pelos ‘Estatutos’”, lembra Mello.

Até hoje, o poeta recebe cartas, emails e telefonemas, de conhecidos e até desconhecidos, a respeito do poema. “O poema tomou vida própria, se desgarrou de mim”, opina.

Um dos trechos mais discutidos, segundo Mello, é o que diz: “Só uma coisa fica proibida: amar sem amor”. “As pessoas acham que se refere ao sexo, mas o amor para mim é a metáfora do belo, das virtudes humanas. ‘Amar sem amor’ é mentir dizendo que vai dar escola para os pobres”, exemplifica o poeta. “Isso é pecar contra a dignidade humana, contra a beleza da vida”.

Atento aos absurdos e horrores do noticiário no País, Mello considera que a “a indignação também é uma forma de amor”. “Ai de quem não se indignar hoje com o que acontece no País”.

Utopia de um paísÀs vésperas dos 50 anos de “Estatutos”, Mello surpreendentemente revela um ressentimento: não ser ainda o homem que canta o poema. “Todo dia trabalho para ser capaz de mais amor. Sinto que tenho muito a fazer ainda. Acredito na construção de uma sociedade justa e igualitária”.

A reforçar essa mensagem, o poeta encerra a entrevista cantando versos de outro poema famoso seu, “Faz escuro, mas eu canto”, numa versão musicada por Monsueto (confira o vídeo no seu smartphone ou tablet por meio do QR Code nesta página): “Faz escuro mas eu canto/ porque a manhã vai chegar...”.